Cerco de Almeida recria acontecimentos da terceira Invasão Francesa de 25 a 27 de Agosto

Durante três dias a vila de Almeida evoca o tempo das Invasões Francesas. O Cerco de Almeida, que vai acontecer de 25 a 27 de Agosto, recria os acontecimentos da terceira Invasão Francesa, em 1810. Haverá atividades de animação, exposições, um mercado oitocentista, um baile oitocentista, oficinas históricas, entre outras iniciativas.

A antiga praça-forte de Almeida, construída nos séculos XVII e XVIII, é considerada uma “joia da arquitetura militar abaluartada. Durante os três dias, a estimativa é de que passem por Almeida mais de duas dezenas de milhar de visitantes.

O presidente da Câmara de Almeida diz que “a recriação histórica do Cerco é o grande evento anual do concelho”, considerando que é um evento consolidado e muito procurado”. António José Machado, à Gazeta Rural, diz que “cabe ao município a salvaguarda da sua praça-forte, do seu património construído, monumental e singular, para além de garantir a preservação das suas memórias”.

Gazeta Rural (GR): A recuperação histórica de eventos que marcam o concelho é um fator determinante para atrair gente ao interior e a Almeida?

António José Machado (AJM): Almeida não é uma estrela vazia. Tem gente, tem casas e tem alma, e como tal, com as suas invulgares muralhas, o suave aconchego do seu casario intramuros, o vasto panorama que a envolve desde o nascer ao pôr-do-sol… é e será sempre motivo de inspiração, de sonhos, e de iniciativas.

Neste pressuposto, cabe ao município a salvaguarda da sua praça-forte, do seu património construído, monumental e singular, para além de garantir a preservação das suas memórias a fim de que este lugar seja sempre motivo de atração, tanto para aqueles que a visitam como para aqueles que nela habitam, ingredientes estes, quiçá o bastante para que, um dia, se venha a efetivar enquanto ‘património da Humanidade’.

Para isso é preciso ver e fazer para lá das pedras. Numa história que se pretende de vários tempos, há que contextualizar as cenas dentro de um tempo recuado quase intemporal e, ao mesmo tempo, revelar aspetos do património construído merecedores de uma visita.

Cá dentro, e dando corpo a uma integração globalizadora da história, consideramos o envolvimento da comunidade local como um dos aspetos mais importantes na salvaguarda dos patrimónios que nos interessam conservar. Nessa medida, o município acredita que os sítios que continuam a suportar o seu património intangível, as suas festas tradicionais e a recordar eventos passados, a sua música local, os seus dialetos, a sua gastronomia são os lugares  mais bem preservados, celebrar a história é estimular este sentimento de pertença e de identidade, e tal facto, cremos, haverá de conduzir a uma maior valorização dos diversos patrimónios que nos rodeiam e maior será a facilidade de fomentar a participação ativa dos habitantes em torno destes eventos, como festas, celebrações, homenagens.

GR: Que importância turística tem hoje o ‘Cerco de Almeida’, enquanto evento de época?

AJM: A Recriação Histórica do Cerco de Almeida é a celebração das memórias. A simbiose muito bem urdida com a comunidade e a Praça-forte conduz a uma marca distintiva da vivência do património. O resultado da atividade do Grupo de Recriadores, que chegam aos 500 este ano, completa, de uma forma quase genial a perceção de uma memória que se desenrola perante quantos participam nesta história. Preenche-se assim com vida, o cenário grandioso da fortaleza transportando o visitante para outra época e o monumento para uma atualização da explicação da sua razão de ser.

GR: Qual o fator que considera determinante e fundamental para o futuro de Almeida?

AJM: São vários os fatores que determinam o futuro de um território de interior, despovoado, como tantos em Portugal, mas que são fatores chave para a consolidação do turismo. A candidatura de Almeida a Património da Humanidade, haver um incremento da oferta da hotelaria e restauração, serem mantidos os estabelecimentos de serviços existentes e ser um polo de atração de novos investimentos e oportunidades são fatores fundamentais.

GR: A ruralidade do concelho é aproveitada, nomeadamente na pecuária, na caça e na olivicultura. Como estão estes sectores e que outros o concelho pode aproveitar?

AJM: Almeida é predominantemente um concelho agrícola, tendo a pecuária como atividade principal. Da parte do município têm sido implementadas várias medidas de apoio com objetivo de incentivo à produtividade e competitividade e de resposta aos crescentes desafios decorrentes das alterações climáticas. Também no que se refere à caça e à pesca, e com estreita colaboração com as associações e clubes existentes no concelho, são divulgadas as atividades cinegéticas de forma atualizada, procurando potenciar o turismo cinegético de forma a atrair os amantes desta modalidade ao concelho e reforçar a cooperação da autarquia e as associações locais. Anualmente, no primeiro fim de semana de fevereiro realiza-se a Feira da Caça e da Pesca em Vilar Formoso, que atrai imensos visitantes.

GR: A cooperação transfronteiriça, partindo da fronteira de Vilar Formoso, tem sido aproveitada na sua plenitude?

AJM:  Sim. O Município de Almeida, juntamente com o Ayuntamiento de Ciudad Rodrigo, criou há largos anos o Consórcio Transfronteiriço de Cidades Amuralhadas, que permite realizar um trabalho em conjunto na dinamização turística destes territórios de fronteira.

Mais recentemente foi criada a Eurocidade “Porta da Europa”, que engloba os territórios do concelho de Almeida e a freguesia de Vilar Formoso, do lado português, e Fuentes de Oñoro e Ciudad Rodrigo do lado espanhol.

Os objetivos de cooperação do AECT Eurocidade ‘Porta da Europa’ vão no sentido de trabalhar em propostas conjuntas que identifiquem os principais problemas e constrangimentos ao desenvolvimento económico e que respondam com novas medidas para promover a atividade económica, a criação de emprego e a luta contra o despovoamento na área territorial da eurocidade, garantindo a coesão económica e social, e comunicando essas mesmas propostas aos governos de ambos países, no sentido de colaborar na definição e implementação de políticas públicas e na captação de apoio comunitário da União Europeia.

GR: Os autarcas do interior continuam a reclamar um novo olhar dos governantes para a desertificação e a litoralização do país. Que medidas entende que são necessárias para mudar este paradigma?

AJM: Acho que é importante diferenciar regalias e condições para que seja mais fácil e atrativo viver no interior. Além disso, implementar medidas de apoio que venham de encontro à fixação de pessoas nestes territórios de interior. Haver maior investimento em infraestruturas e serviços; fomentar a criação de empresas e o desenvolvimento de setores de alta tecnologia, por exemplo pode atrair técnicos e criar empregos; promover isenções fiscais, financiamento e parcerias com universidades e institutos podem ajudar a impulsionar a inovação e a competitividade nestes territórios; oferecer incentivos fiscais e subsídios para empresas que se estabeleçam no interior podendo assim ajudar a equilibrar as disparidades regionais e atrair mais investimento; facilitar o acesso a empréstimos e financiamento poderá ser através de fundos comunitários para pequenas e médias empresas no interior podendo assim impulsionar a atividade económica, gerando emprego, fazendo assim a economia circular; simplificar os processos burocráticos para abrir negócios e realizar investimentos em territórios de baixa densidade pode tornar estes territórios  mais atraente para empreendedores, beneficiando da localização estratégica de Vilar Formoso como fronteira e a existência da ferrovia, tem que existir uma verdadeira politica de coesão do país e estes territórios não ficarem a ver passar os comboios!

GR: Que conselhos daria a quem nunca visitou Almeida?

AJM: Desde já deixar o convite para visitarem todo o seu rico património, localizado nas aldeias históricas de Almeida e Castelo Mendo, assim como na aldeia medieval de Castelo Bom, sendo a Fortaleza de Almeida, em forma de estrela, a diferenciar-se pelo seu rico património arquitetónico abaluartado, que tem por referências o Museu Histórico Militar, localizado nas Casamatas, o Trem de Artilharia, que deu lugar ao Picadeiro D´el Rey, o recém inaugurado Centro Interpretativo das Fortalezas Abaluartadas, localizado nas Portas duplas de S. Francisco, e o Centro de Estudos de Arquitetura Militar nas de Portas de S. António, as ruínas do Castelo medieval, a Casa da Roda dos Expostos e o Antigo Quartel das Esquadras são locais emblemáticos da cultura militar portuguesa. Gostaria de destacar os passeios de charrete na vila histórica de Almeida, assim como a descoberta das nossas rotas equestres que percorrem todo o concelho. Uma visita às termas de Almeida Fonte Santa, para poderem relaxar e descontrair com os tratamentos aí oferecidos.

Relembrar que todos os anos no último fim de semana de agosto realiza-se em Almeida, a Recriação Histórica do Cerco de Almeida, juntando para o efeito perto de 500 recriadores que retratam as batalhas ocorridas em 1810, nesta vila contra as tropas napoleónicas naquela que foi a III invasão francesa a Portugal.

Em Vilar Formoso, a principal fronteira terrestre, é de visita obrigatória o polo museológico Vilar Formoso Fronteira da Paz – Memorial ao Refugiados e ao Cônsul Aristides de Sousa Mendes, tendo ao seu lado localizado a belíssima Estação dos Caminhos de Ferro, bem como apreciar a antiga Locomotiva BA 101 e o edifício da Alfândega, com as esculturas de Lagoa Henriques e os painéis de azulejos do Júlio Resende.

A valorização dos recursos hídricos das principais linhas de água, e principalmente do Rio Côa, com paisagens deslumbrantes para descobrir pelas aldeias que o acompanham com o seu património cultural e religioso, como a peregrinação da Nossa Senhora da Ajuda, em Malhada Sorda, ou Santa Eufémia na Freineda e as suas tradições raianas, com os toiros a “correrem” pelos campos e pelas ruas, nas tradicionais festas das nossas freguesias, que nos fazem entrar no caminho do turismo de natureza que a região tanto valoriza.